Saiba como funciona o tal do traffic shaping

Negado pelos fornecedores de serviço de internet e uma dor de cabeça para os usuários - saiba mais sobre o controle de tráfego

Por (Model.Autor.Nome) em 28/11/2011


Imagine que a internet é como uma grande avenida onde trafegam carros, motos e caminhões, cada um carregando um certo volume de pacotes a uma determinada velocidade. Só que na hora do rush é normal que o tráfego fique lento e congestionado. Então o governo decide banir os veículos mais pesados, no caso os caminhões, só permitindo sua circulação em determinados horários, enquanto cada vez mais carros e motos utilizam a avenida.

Troque governo por provedores de banda larga e caminhões por torrents e streaming de áudio e vídeo e temos um exemplo de como funciona o traffic shaping. Negado pelas empresas e denunciado por usuários e órgãos de defesa do consumidor, a prática tem justificativas até nobres, como gerenciar melhor o uso da rede, tornando sua distribuição mais igualitária.

Sua navegação é regulada? Isto é o traffic shaping

Sua navegação é regulada? Isto é o traffic shaping 

"Esse termo (traffic shaping) é muito abrangente. Pode significar que o provedor, por exemplo, te protege de acessar sites com vírus, o que é bom", diz Horacio Belforts, presidente da Associação Brasileira de Usuários de Acesso Rápido (Abusar). "Mas pode também prejudicar intencionalmente o tráfego de VoIP e transferências ponto a ponto (P2P)." 

duas maneiras de se fazer o controle de tráfego. A mais comum e abertamente utilizada pelas empresas de telecomunicações é o limite de franquia de consumo de dados. Recentemente ele foi adotado pelo governo federal no projeto Banda Larga Popular, que oferece velocidade de 1 Mbps e limite mensal de 300 MB. Se o usuário ultrapassar essa cota, a velocidade é drasticamente reduzida, exceto se o usuário comprar uma franquia extra.

Segundo a assessoria de imprensa do Virtua, que tem franquia em todos os seus planos, a grande maioria dos clientes nunca teve a velocidade reduzida e que os usuários que já tiveram respondem por uma alta utilização da rede, muito acima da média.

Outro método, menos velado e alvo de grande parte das críticas, é a discriminação do conteúdo acessado pelo usuário. Ou, "quando a empresa diminui a velocidade e a qualidade da internet do consumidor quando ele frequenta determinados sites, faz atividades específicas, como downloads, ou utiliza algumas ferramentas, como o Skype na internet móvel", segundo Guilherme Varella, advogado do Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec), entidade que recentemente iniciou uma campanha por melhorias na internet banda larga.

Você tem seu conteúdo restrito pelo provedor de banda larga?

Você tem seu conteúdo restrito pelo provedor de banda larga?

Neutralidade

O grande problema disso tudo é a questão da neutralidade na rede, assunto que está em pauta em diversos países do mundo. No última dia 20, entrou em vigor nos EUA as novas regras de neutralidade na internet, que proíbe que empresas bloqueiem "conteúdos , aplicativos ou serviços que não sejam prejudiciais" ou discriminem "de forma não-razoável o tráfego na rede".

Em novembro, o Parlamento Europeu aprovou uma resolução que pede à Comissão Européia que pense em regras de regulamentação que possam proteger os usuários de bloqueio ou discriminação de conteúdo por parte das empresas de telecomunicações. O texto, porém, permite aos provedores gerir sua banda "prevenindo o congestionamento da rede e garantindo o bom funcionamento de aplicações e serviços".

No Brasil, as conversas também estão adiantadas. No final de outubro, o Marco Civil da Internet (um anteprojeto de lei que pretende definir os direitos e deveres na internet) foi enviado pela presidenta Dilma Rousseff ao Congresso Nacional, onde será analisado por uma comissão especial. O Marco Civil foi elaborado em duas grandes consultas feitas por meio de um site onde qualquer pessoa podia colaborar, fazer sugestões ou opinar - uma iniciativa inédita no mundo.

O PNBL deve exigir a neutralidade na rede

 O PNBL deve exigir a neutralidade na rede

No artigo 2º, que trata da disciplina do uso da internet, o sexto item marca como fundamento a "preservação e garantia da neutralidade da rede, conforme regulamentação".

A aprovação do Marco Civil da Internet é o último passo para que a neutralidade seja adotada como um direito legítimo do usuário. Em 2009, o Comitê Gestor da Internet (CGI.br), um conselho interministerial com representantes do governo, das empresas e da sociedade civil, aprovou a resolução "Princípios para a governança e uso da Internet no Brasil". Um dos itens afirma que a "filtragem ou privilégios de tráfego devem respeitar apenas critérios técnicos e éticos, não sendo admissíveis motivos políticos, comerciais, religiosos, culturais, ou qualquer outra forma de discriminação ou favorecimento".

Em outras palavras, mesmo que serviços de VoIP, Netflix ou torrents concorram comercialmente com os provedores, eles estarão impedidos de alterar sua taxa de transferência. "Ao não tratar de forma isonômica aqueles que fornecem serviços concorrentes ao seu, as detentoras das redes eliminam competidores e impedem que o serviço contratado seja utilizado de acordo com os interesses e conveniências do consumidor", afirma Varella. "O acesso a conteúdos e aplicações na Internet deve ser universal e não-discriminatório, e os operadores de redes e de serviços de Internet devem garantir que os pacotes de informações transitem de forma isonômica nas redes, sem sofrer qualquer tipo de discriminação."

O que fazer

Antes de mais nada é preciso ter certeza se a conexão está sofrendo traffic shaping. O site Measurement Lab (M-Lab), criado por pesquisadores norte-americanos em parceria com o Google, reúne diversos medidores que conseguem detectar se há alguma anomalia no tráfego da rede. Os mais recomendados são o Glasnost, que detecta se está ocorrendo traffic shaping em P2P, aplicativos padrão (HTML) ou streaming (Youtube), e o ShaperProbe, que analisa se há controle de tráfego também em uploads.

O problema é que se for confirmado o traffic shaping, as alternativas para dribrá-lo são escassas e pouco efetivas, conta Belforts: "Algumas vezes é necessário o uso de um servidor proxy externo e um túnel criptografado para contornar algum obstáculo criado pelo fornecedor do link. Mas, dependendo do que se deseja, pode ser impossível".

A saída é sempre reclamar nos órgãos de defesa do consumidor (Procon, Idec) ou na Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), com provas de que o tráfego está sendo controlado irregularmente; pressionar as empresas para que invistam mais em tecnologia, como em redes Next Generation Network (NGN) de última geração; e forçar o Congresso a aprovar o Marco Regulatório para transformar a neutralidade na internet em lei.

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